Pele às bolinhas…

Imagem Pensei que tinha escapado, mas, pelos vistos, somente adiei. Adiei o meu momento de ver brotar em meu corpo bolhas mil, estampando a minha pele com imensas… petit pois vermelhinhas (varicela/catapora). Até gosto de roupas com bolinhas, mas bolinhas no corpo não tem a menor piada. Sempre ouvi dizer que quando essas doenças típicas da infância ocorrem na idade adulta é muito mais forte do que seria em caso contrário. A minha filha, com 3 anos, também foi “presentada” com as tais bolinhas, mas com muito menos intensidade e com muito mais rapidez de cura do que as minhas. Devo dizer que não gostei nada de experiência e nem gosto de imaginar as sequelas que a minha pele do corpo terá. Quando ficar apta para ir à rua, vou rapidamente saber que outras doenças pueris possuem vacinas, porque não quero e não tenho mais idade para perder dias dentro de casa e sofrer de dores e marcas. Com a minha filha, muitas aventuras destas ainda me aguardam, uma vez que nada de enfermidades típicas tive na infância. Por isso tenho de me proteger rapidamente do que for possível. Enfim… Hoje fez um belo dia. Depois de muitos meses, dias frios, o sol hoje resolveu brilhar. Foi uma bela notícia da natureza a bater na janela de casa, de onde pude desfrutá-la. Espero que quando eu puder sair desse meu exílio, possa reverenciá-lo e que ele espere por mim, por favor, senhor Sol!

Completo hoje, 7 dias sem sair de casa…

O sabor da romã

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Fui ao mercado fazer a feira aqui de casa e em meio a dezenas de legumes de frutas expostos no local estavam reluzentes romãs. Resolvi então comprar uma. Não sabia bem o que iria fazer com ela, mas, enfim, levei-a. Segundo o Wikipédia, “a romã é uma infrutescência da romãzeira (Punica granatum) e não uma fruta. O seu interior é subdividido por finas películas, que formam pequenas sementes possuidoras de uma polpa comestível”. Dias depois de tê-la comprado, foi que lembrei de saboreá-la. Não comi muitas romãs na vida, talvez, para ser franca, umas duas ou três. Apesar disso, conheço a fruta desde que era criança. Minha avó paterna tinha uma romãzeira em sua casa e costumava pingar o sumo da fruta em seus olhos, na tentativa de ficar curada das cataratas. Não sei onde ela ouviu falar nesse procedimento farmacêutico, mas, enfim, são práticas populares que as pessoas, principalmente as que não tem meios financeiros para irem aos especialistas, adotam na fé de se verem livres de males que as afligem. Sinceramente, não sei se ela chegou a comer uma romã em sua vida. Talvez só a usasse nos seus olhos. Dizem que o seu consumo pode ajudar a reduzir a pressão arterial e ser utilizada na prevenção de alguns problemas cardiovasculares. Minha avó morreu de um ataque fulminante do coração, dentro de sua casa simples, com seus hábitos simples e na companhia de minha tia, deficiente física e mental que mal conseguia relatar o que se havia passado, e talvez ainda com muita catarata. Será que ela degustava aqueles pequenos rubis do interior da romã que, segundo dizem, poderia ter enriquecido sua dieta e minimizado seu problema cardíaco? Bem, anos se passaram depois disso e as lembranças das romãs foram enterradas com a minha avó. O que sei é que só fui degustar uma romã depois que cheguei a Portugal, já com mais de trinta anos de idade. Nem sabia que também se podia comer, pois conhecia apenas o seu uso para os olhos, até que um colega do escritório onde trabalhava me ofereceu a metade de uma. Adorei o seu sabor, mas também não me dei ao trabalho de comprar mais e/ou procurar por ela em minhas idas aos (super)mercados. Atualmente, estou tentando fazer uma alimentação mais rica em nutrientes que consumi pouco ou nunca consumi na vida. Quero conhecer novos sabores. É engraçado como muitas vezes precisamos cruzar fronteiras para dar valor, ou conhecer, as coisas que estão mesmo debaixo de nossos narizes durante anos. Talvez, agora, coma romã mais vezes e de diferentes maneiras. Com isso tudo, lembrei-me da minha avó. Espero que ela esteja muito bem onde tiver.

Mais um adeus…

  • adeusComo diz o compositor: “A vida vem em ondas como o mar, no indo e vindo infinito…”. Não vou fechar a porta agora e achar que, quando tornar a abri-la, encontrarei tudo no mesmo lugar. Sempre há mudanças, mas, atualmente, os quadros ganham novos contornos muito rapidamente e a perplexidade invade meu espírito sempre que os defronto. O novo se mistura ao velho velozmente, colorindo, mas também borrando, a paisagem fixada com muito esforço em minha memória. As células… Sim. Elas correm. Correm e esticam o corpinho de (ex)bebe de minha filhinha e correm dos corpos cansados de meus pais. E eu? Fico no meio desse espetacular movimento natural arranjando pontos, pontes, trajetos, passagens… que unam mais rapidamente esses opostos afim de tentar driblar o tempo e fazer-nos conviver o máximo possível e com boa qualidade de vida. Mais uma estadia está chegando ao fim. Voltarei em breve para minha casa, em Portugal. Revi alguns amigos, comi bastante, engordei bastante, tive momentos infindos de insônia (jetleg horrores), vi minha filha brilhar, saltar, brincar à luz do sol tropical, reconhecendo vovô e (bisa)vovó e chamando por eles em suas brincadeiras. Foi tudo muito bom. Agora, é arrumar as malas, vencer a angustia da futura saudade avassaladora e voltar para o meu lar, para o meu marido e para uma vida nova que me espera para começar.

Mais uma de Paris

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Achava que não iria mais a Paris, pelo menos não tão cedo. Mas eis que surgiu uma oportunidade e lá fomos nós outra vez. O tempo foi curto até para vermos os monumentos e caminhos tradicionais, pois temos agora de seguir o ritmo da criança, da minha filha, que tem dois anos. Embora ela ame correr, suas perninhas não aguentam o fantástico subir e descer de escadas das estações de metro e… as nossas pernas, um pouquinho maiores do que as dela, sofreram também um bocado. O calor do verão era intenso e não podíamos nos dar ao luxo de não o enfrentar. Todas as horas eram aptas a passeios. Foi muito bom a experiência e ainda tive a sorte de rever algumas pessoas amigas. Como já frisei várias vezes por cá, Paris é sempre uma festa. Apesar disso, há quadros que também chocam. Não se tratam de pinturas muito exóticas, pois mendigos a dormirem nas ruas, no seu mais completo grau de abandono pela sociedade e pela sua própria alma, é cenário facilmente encontrado em muitos países, por isso passam “em branco” aos olhos de muitas pessoas, mas causam mal estar por não combinarem com o conceito de lugar belo, organizado e rico. Enfim, coisas das sociedades modernas. Apesar disso, vale muito a pena sempre visitar aquela cidade. Amo o bairro de Montmartre que, na minha opinião, nada é mais parisiense. Segundo o Wikipédia: “Em 1860, o bairro foi ligado à cidade e transformou-se num ponto de encontro importante de artistas e intelectuais, famoso pela sua animada vida noturna. Modelos, bailarinas e pintores como Degas, Cézanne, Monet, Van Gogh, Renoir e Toulouse-Lautrec frequentavam o lugar, contribuindo para criar um clima libertário.” Muito lindooo!!

Os lírios de Veríssimo

lírios + veríssimo
Essa semana, finalmente, acabei um livro que havia comprado numa feira de livros do Chiado, em Lisboa, e gostei muito: “Olhai os lírios do campo” do escritor brasileiro Érico Veríssimo. A brochura é de 1973, mas o texto é de 1938, apesar de o aspecto psicológico das personagens e sociedade serem bastante atuais, atemporais, portanto. O título da obra diz respeito a uma passagem bíblica (“Olhai os lírios do campo, não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles.”).
Os personagens do livro questionam muitas vezes onde está o poder de Deus que não atua diante das misérias do mundo. Eugénio, o protagonista, é um médico proveniente de uma família pobre e consegue, a custa de um casamento sem amor com Eunice, fazer parte da alta sociedade, onde ela habita. Vive durante muito tempo sob a luz da superficialidade, da ganância, do preconceito, da indiferença para com os problemas da humanidade, do comodismo. Não esquece, porém, de Olívia, ex-colega de curso, pessoa de alma simples, por quem teve um grande amor. A morte de Olívia e a existência de uma filha em comum, o fez descer os degraus sociais e mudar de universo por opção. Passou a conviver de perto com as doenças, com a impotência para salvar vidas, com problemas de foro íntimo dos cidadãos (doenças venéreas, que matavam/infectavam muitas pessoas na época, loucura etc), com a morte, e com a incerteza do que era ter escrúpulos e se havia um limite para isso. Há diálogos e opiniões fortíssimas sobre variados assuntos, principalmente sobre a existência e o papel de Deus diante da ganância, da doença e dos males que afligem a humanidade. Um trecho do livro explica o seu título:

“Deixou a janela e, como costuma fazer quase todas as manhãs, pegou um livro de medicina para estudar. Leu algumas páginas com a atenção vaga. Não podia esquecer a doçura da hora. Deviam estar lindas as ruas sob aquele sol maduro e amigo. Imaginou-lhe os reflexos nas árvores do parque, de sombras frescas, azuladas e cheirando a sereno. Os marrecos nadando no lago. Ana Maria atirando-lhes migalhas de pão… Fecho o livro, brusco, tornou a metê-lo na prateleira. Aproximou-se de novo da janela. O “Megatério” lá estava, esfumado no meio da neblina. A sua fachada de cimento achava-se marcada de recortes claros e simétricos, tabuletas, placas com nomes de médicos, dentistas, engenheiros, advogados, modistas, escritórios, clubes…
Se naquela instante – refletiu Eugénio – caísse na terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que, num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens, na sua maioria, estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas… E se perguntasse a qualquer um deles: “Homem, porque trabalhas com tanta fúria durante todas as horas de Sol?” – ouviria esta resposta singular: “Para ganhar a vida”. E no entanto a vida ali estava a oferecer-se toda numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se no Mundo e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição transformava-os em inimigos. E havia muitos séculos tinham crucificado um profeta que se esforçara por lhes mostrar que eles eram irmãos, apenas e sempre irmãos.”

Primaveras de minha vida

40 anos de vidaNos primeiros dias do mês de Junho, fui galardoada com uma medalha de sócia mais nova do clube dos -enta. São 40 primaveras no meu corpo, na minha carroceria (está sentença toda me faz espirrar… lacrimejar… primavera… flores… 40 anos… atchimmm!!! Ai, minhas costas!!). Fui presenteada com um lindo e delicioso jantar elaborado com muito carinho pelo meu marido. Obrigada, querido, sinto-me muito feliz por abrir a porta de uma nova década de vida em tua companhia. Enfim… Dizem que a vida começa aos 40, portanto, ainda sou um bebê e não me posso considerar um testemunho da veracidade dessa afirmação. O que sei é que tanta coisa já me fez feliz, tanta coisa já me fez chorar de tristeza, tantas pessoas passaram pelas veredas da minha existência, tantas sumiram, tantas morreram, tantas nasceram… Tudo é experiência, tudo é aprendizagem, tudo ajuda a me fazer forte. O que é surpreendente é sentir o esfarelar das lembranças… Essa semana, minha irmã me disse que ainda tinha uma bota que era igual a uma que eu tinha, que adorava e usava muitas vezes. Fiquei chocada… Ai, que não me lembro dessa bota… Pensei que tinha guardado na minha memória todas as coisas que gostava e, por isso, eram importantes para mim… Acabo de descobrir que muitas partículas foram ficando para trás nessa jornada e que, afinal, os gigabytes da mente não são suficientes para armazenar todas as  informações durante tanto tempo (ou… o que ficou para trás perdeu a importância). Todos os seres humanos sabem disso, mas sentir na pele é, realmente, surpreendente. Outra coisa que surpreende é… Não consigo. Não consigo rodar o bambolê/arco na minha cintura!!! O que é que se passa? Eu era um ás no bambolê/arco e agora é tão difícil! Bem, deixa isso para lá. Não preciso de bambolê para nada mais na minha vida mesmo… Sei contar até 100 e escrever esse texto e minha filha de dois anos, o maior presente da minha vida, não sabe, tá bem!? Ah, também não sabe rodar o bambolê na cin-tu-ra… trá-la-la-la-la-la…

À espera da manhã

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Acabo de ceder meus 50% da cama para a minha filha, que resolveu, mais uma noite, ter pesadelos. Tenho sono, mas não tenho vontade de dormir. Quando acordo e fico em pé, a minha alergia à bela e maldita primavera me faz espirrar sem fim e meu nariz pinga mais do que goteira em telhado de pobre. Além disso, depois que uma pessoa abre os olhos, uma avalanche de pensamentos toma dinamismo, invade a mente e fica muito difícil relaxar e recomeçar a dormir, pelo menos no meu caso. Ficar deitada assim é angustiante. Estou a espera de algumas respostas muito importantes para o meu futuro próximo e isso me deixa muito travada e a vislumbrar paisagens com o olhar parado, para não falar da falta de vontade de lutar para vencer a ignorância, a falta de conhecimentos que impede a fluição de meu trabalho. Já faz algumas horas que estou acordada e parece que o sono agora quer tomar conta de minhas pálpebras, mas falta pouco tempo para o horário que eu teria de acordar. Da moldura da minha janela, irradiante de sol, elementos já bailam num vaivém a construir mais um dia de gente: barulhento e agitado. Lá vem o metro e, agora, tenho menos pena da pessoa que está na estação, ao sabor do ventinho da manhã que acredito estar gelado. Uma moto velha. Uma bicicleta. Um homem a correr. Uma pessoa entrou no autocarro. Uma senhora gorda de blusa vermelha atravessa lentamente a rua na passadeira (=faixa de pedestre) e faz parar o trânsito por alguns momentos. Um pássaro pia inutilmente, pois o ruído da rua é maior. Há um pedaço de linha pendurado na rede de proteção anti-queda da janela que fazem linhas xadrezes de sombra nas paredes do quarto… O despertador… Hora de deixar de ser espectadora e passar a fazer parte do cenário.