Lembranças de um escritório

ImagemCerca de cento e cinquenta metros quadrados. Era neste espaço que passava minhas manhãs e tardes. Tratava-se de um escritório de administração de condomínios, onde também trabalhavam mais cinco pessoas, além do patrão, que não pode ser incluído na mesma classe desses seres. Ele sozinho ocupava um terço do espaço total do escritório, para não falar dos quase quarenta por cento do nosso dia e dos cem por cento de nossa paciência. Quando estava no escritório, que somava uns oitenta por cento das vezes, sentíamo-nos como se estivéssemos mergulhados dentro de bolhas unitárias dentro do fundo do mar, pois éramos obrigados a fazer um silêncio sepulcral a fim de permitir que esse “génio” da gestão empresarial pudesse pôr as sua baralhadas ideias no lugar. O que nos separava da realidade era uma enorme janela de vidro que, para mim, era o ecrã onde passavam pequenas fracções do filme da vida que assistia inerte do meu reduzido espaço naquele latifúndio. Éramos espectadores do cenário, do movimento da vida que se passava do lado de fora. O nosso tempo parecia diferente do daquelas pessoas que desfilavam suas figuras pelas ruas daquele condomínio aberto, cujos prédios nos cercavam.

Entre uma carimbada e outra, um telefonema de condómino a reclamar de uma luz fundida na garagem de seu prédio e uma ridícula observação do patrão a respeito de nosso trabalho, ficava a imaginar o que teria sido feito de minha vida se estivesse a trabalhar em outro lugar. Mas rapidamente, dava glória aos céus por ter tido essa oportunidade, pois uma imigrante dificilmente pode cuspir sobre o prato que come. Por falar em comida, finalmente chegava a hora do almoço. Arrumava a minha secretária e rumava, como uma fugitiva, para a porta de saída do escritório que, ao ser aberta, atirava-me directamente ao passeio, ao sabor de uma enorme ventania que violava os caixotes do lixo e fazia bailar papeis, sacos plásticos e todo tipo de resíduo volátil pela rua. Meus cabelos indomáveis, o vento na cara, dava-me vontade de abrir os braços, como kate Wisled e Leonardo de Caprio, no filme Titanic, ao som de “My Heart Will Go On” – Celine Dion, cujo refrão reverberava em minha cabeça, mas continha-me para não parecer louca, mais do que me sentia antes de pisar aquele solo sagrado d’além escritório, de tão grande era a sensação de liberdade que se apoderava da minha alma, disfarçada atrás da máscara de empregada durante toda uma ensolarada manhã.

Personagens de todos os gêneros cinematográfico me cercava, dentro de fora daquelas quatro paredes. Há cenas e vozes daquele período que nunca mais se calarão em minha mente. Foi o meu primeiro trabalho em Portugal. Dele tenho muito péssimas memórias, alguns traumas na relação patrão-empregado, alguns euros a menos que não foram pagos, mas algumas boas lembranças e uma amizade que, pelo menos da minha parte, estará sempre em meu coração. Tudo é experiência de vida. Se não serve para nada, pelo menos serve para escrever aqui.

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A fazer minha cabeça em água

cabeça d'águaQuando cheguei em Portugal, tive contato com essa magnífica expressão “a fazer a cabeça em água”, ou seja, alguém, ou algo, causa extrema preocupação/chateação à outra pessoa. Neste exato momento de minha vida, tenho a sensação que meu cérebro não passa de um amontoado de líquido inerte, insípido-incolor-inodoro = água, onde, em vez de neurônios, boia um lindo peixinho dourado adoentado. Estou com uma hidrocefalia psico-social. Tenho um trabalho para fazer, do qual nada entendo; Um futuro incerto para gerir; Um bebé abaixo do peso e que faz da comida um mero detalhe em sua vida e… estou lutanto contra uma tal vertigem que me afastou da vida de condutora de automóveis (estou frequentando uma auto-escola para voltar à conduzir/dirigir e tenho medo que no final das aulas a investida não resulte). Isso tudo junto desmancha a minha mente, esfarela a pobrezinha, que já não funciona como antigamente. Ainda por cima, estou com uma constipação/resfriado e, do meu nariz sai… água. Devido ao meio aquático que me cerca, hoje sonhei que uma onda enorme engolia-me, junto ao meu marido e à minha filha. Ai, que horror!!

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O tempo a escorrer pelos dedos

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Liguei a televisão e estava a passar o filme Mamma Mia. Já ia para mais da metade e fiquei para ver o restante. O filme não é essas coisas todas para se ver mais de uma vez, pelo menos na minha opinião, mas até que diverte e há uma cena que me emociona sempre que a assisto, que é a da música ”Slipping through my fingers“, dos ABBA. Quando fui assistir a essa filme no cinema, logo que estreiou em Portugal, até escrevi sobre isso aqui na altura (http://galeota.wordpress.com/2008/09/13/um-passo-para-o-futuro/), saí de lá chorando convulsivamente, apesar da película ter lá algum ar de comédia. Lembrei-me da minha irmã, como já falei no post mencionado. Agora, sinto mais coisas. Na época, senti-me no papel de filha, no papel de quem quer colo nesse momento véspera-de-casamento, de quem precisa de pedir desculpas para a mãe, para os pais, pelos desgostos e decepções que lhes proporcionou, precisa de chorar, de sorrir em companhia da família, de viver últimos momentos. Não fiz nada dessas coisas antes de casar. Tratei o meu rito de passagem para um outro modo de vida muito mal. Foi tudo muito apressado e desorganizado. Apesar de ter sido um dia muito feliz. Agora, vejo a cena através do prima materno e como diz a música “I try to capture every minute / The feeling in it”, tento capturar cada minuto da minha filha que posso, fazer com ela tudo que posso, ir com ela para todos os lugares que posso e sorrir com ela em todos os momentos que puder. Tenho medo e já sentimento de culpa de lhe faltar. Tenho sentimento de culpa de não ter compartilhado momentos com a minha mãe, por pura imaturidade, e, assim, saudade de momentos que não vivi. Enfim, espero que o futuro me presentei com um bilhete para entrar na vida de minha filha e de fazer parte dela e termos um existência sem segredos, compartilhada da melhor forma.

Escorregando Pelos Meus Dedos (tradução)

Com a mochila da escola na mão, ela sai de casa de manhã cedo
Acenando adeus com um sorriso distraído
Eu a vejo partir com uma onda daquela bem conhecida tristeza
E eu tenho que me sentar um pouco
O sentimento de que eu a estou perdendo para sempre
E sem realmente entrar em seu mundo
Fico feliz todas as vezes que posso compartilhar de sua risada
Essa menininha engraçada
Escorregando pelos meus dedos todo o tempo
Eu tento capturar cada minuto
O sentimento nisso
Escorregando pelos meus dedos todo o tempo
Eu realmente vejo o que está na mente dela?
Cada vez que eu penso que eu estou perto de saber
Ela continua crescendo
Escorregando por entre meus dedos todo o tempo
Sono em nossos olhos , ela e eu na mesa do café
Meio acordada, eu deixo tempo precioso passar
Então quando ela se vai tem aquele ocasional sentimento melancólico
E um sentimento de culpa que eu não posso negar
O que aconteceu às aventuras maravilhosas?
Os lugares que eu tinha planejado para nós irmos
(escorregando pelos meus dedos todo o tempo)
Bem, algumas delas nós fizemos, mas a maioria não
E o porquê eu simplesmente não sei
Escorregando pelos meus dedos todo o tempo
Eu tento capturar cada minuto
O sentimento presente
Escorregando pelos meus dedos todo o tempo
Eu realmente vejo o que está na mente dela?
Cada vez que eu penso estar perto de saber
Ela continua crescendo
Escorregando por entre meus dedos todo o tempo
Às vezes eu queria poder congelar a imagem
E salvá-la dos engraçados truques do tempo
Escorregando pelos meus dedos
Escorregando pelos meus dedos todo o tempo
Com a mochila na mão, ela sai de casa de manhã cedo
Acenando adeus com um sorriso distraído
 
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Autorização de Residência – Parte II

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Esta semana teve início a minha saga ao SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) parte II. A minha Autorização de Residência caducou e chegou a altura de sua renovação. Já se passaram cinco anos, desde que tirei a minha primeira carteirinha de Autorização. Agora, a nova tem validade de dez anos, ainda bem. Ainda é de papelão, o que eu acho péssimo. Sei que é um detalhe na vida da pessoa, mas fico morta de vergonha de apresentar esse documento, quando é preciso. Essa coisa de papelão dá uma péssima impressão, para rimar, na minha opinião. O que fiquei sabendo foi que já posso, por causa do tempo que sou casada com um português, tirar um cartão mais apresentável, na Conservatória de Registo Civil, e que quase equivale a um Cartão do Cidadão português.

Bem, para brasileiro(a)s casado(a)s com português(a), o que deve levar para o SEF, para renovar a residência é:

a) Primeiramente, tem de fazer a marcação do dia que lá irá através do seguinte telefone: 808 962 690;

b) Levar o cartão de Autorização de Residência antigo (e a fotocópia);

c) Passaporte válido (e a fotocópia das duas primeiras páginas);

d) IRS do cônjuge, para comprovar os meios de subsistência (e a fotocópia);

e) Certidão de casamento;

f) 2 fotos 3×4;

g) Comprovativo de morada (conta de água, luz…) (e a fotocópia);

h) B.I. do cônjuge português (e a fotocópia);

i) Preencher o impresso (aqui);

j) O conjuge português tem de assinar um termo de responsabilidade (aqui).

Para maiores informações, entrar no portal do SEF (http://www.sef.pt/portal/v10/PT/aspx/page.aspx#0).

Boa Sorte a todos.

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Divagações

Gostaria de ter asas. Submergir na paz do azul celestial, rasgar nuvens, sentir o vento e a paz do espaço e nele correr como uma gazela, até sentir uma exaustão de adrenalina e tensão a sair pelos poros. Gritar, propagar minha voz no ar, nos vales do silêncio, da imensidão sem fim. Ouvir o reverberar do sorriso dos anjos, das crianças, os sons da minha filha, do movimento das borboletas. Sentir o aroma dos lírios e das Margaridas ver lágrimas brilharem com o sal que tempera a vida de alegria colorir o arco-íris de fé e bem-aventurança. Ouvir, sentir, ver… Estar viva, lúcida. Dormir e acordar num mundo de amor pelo amanhã, verde, (h)úmido. Ver brotar a esperança em dias mais tranquilos.

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A sensualidade da gramática

Esse texto chegou até mim via e-mail. Não conheçImagemo o autor, mas é de uma criatividade invejável.

“Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: “Ótimo!” Pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. 

Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. 

Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta. Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela porta e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.”

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Um sonho além mar

Não é novidade para ninguém a crise econômica que assola Portugal. Em decorrência disso, muitos imigrantes estão regressando aos seus países, fugindo de condições socioeconômicas que não justificam a pena de estar longe de familiares e de seus costumes. Muitos brasileiros, por exemplo, vêm para Portugal com a intenção de pôr a vida em suspenso e só trabalhar, trabalhar, trabalhar para ganhar dinheiro e voltar ao Brasil. Outros vêm com a intenção de começar em Portugal e depois desbravar a Europa. Outros vêm com o sonho de encontrar um príncipe/princesa europeu/europeia. Enfim, são muitos os sonhos/necessidades que motivam a saída de uma pessoa de seu local de origem, mas, o que é verdade, é que poucos conseguem levar os objectivos pretendidos até o final, sem se envolver com pessoas, coisas, linguagem, com o dinamismo da vida e do lugar que se vão empregnando em nossa rotina sem nos apercebermos. Imigrei há seis anos por motivos pessoais, não financeiros. Encontrei e encontro inúmeras dificuldades profissionais. Dei muito “murro em ponta de faca” e fui me espalhando por outras áreas, tentando driblar as dificuldades. Desde que estou aqui, já voltei, a passeio, várias vezes ao Brasil. Cada vez que vou, sinto-me mais desambientada. Chego a conclusão que imigrar é um assunto muito sério, porque a uma dada altura, ficamos despatriados, perdidos, não somos caipirinha e nem somos vinho. Sou casada com um português e, por opção, não estou envolvida em nenhuma comunidade brasileira. Isso talvez dificulte mais a minha adaptação. Bem, só tenho a dizer que a realidade é dura. Se alguém quiser o meu conselho: Tentem alternativas financeiras dentro do Brasil, primeiro, antes de entrar nessa aventura que talvez não haja volta psicológica. Tudo é muito difícil, mas… não é impossível. A felicidade e os sonhos estão ao alcance de todos.

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