Desembarque

O avião aterrou. O piloto deu-nos o comando para soltarmos os cintos de segurança. Durante todo o trajeto, esse foi o primeiro momento que senti insegurança e deparei-me com a realidade de agora estar sozinha e do quanto estava distante da minha família e dos meus amigos. Seguindo um procedimento normal desse tipo de viagem, desci do avião e fui em direção à sala de recepção de bagagens. Em alguns instantes, pessoas acumulavam-se a olhar fixamente para um esteira que girava, de onde surgiriam, como por um passe de mágica, as nossas malas. Olhava para o rosto dessa gente e ficava me perguntando em que estavam pensando, que sonhos e experiências estavam encerrados naqueles compartimentos tão ansiosamente esperados. Quanto a esse povo, nada sei, mas quanto a mim, dentro das minhas malas estavam porções de um passado recente que me ajudariam a não me perder de mim mesma, a não perder a minha identidade, além de sonhos e expectativas, pois parti do meu país em busca de uma nova vida ao lado de uma pessoa amada. Já estive nesse lugar uma vez, mas, como já dizia o filósofo grego Heráclito, não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao entrarmos pela segunda vez, não serão as mesmas águas que estarão lá e nós mesmos já seremos diferentes. Enfrentei algumas tempestades pessoais da outra vez, que águas me recepcionarão desta? Lá vinham elas… duas malas, grandes, do tamanho dos meus desejos de ser essa a escolha certa para a minha vida. Vinham dançando na esteira, felizes por estarem frente a alguém amigo, pareciam querer pular para os meus braços, para seguirmos juntas pelo mundo afora. Esse realmente foi um momento íntimo e único, pois só os meus neurônios foram testemunhas dos meus pensamentos e angustias. Peguei-as, coloquei-as em um carrinho e caminhei para o portão de desembarque. Comparo esse, ao instante do nascimento de uma criança. Estive desse lado da porta durante tantos anos… o que será que me espera do outro lado? Como uma contração, a porta abriu-se e fechou-se rapidamente, uma pessoa nasceu naquela altura. Agora era a minha vez. A porta abriu-se, inteira, plena, para me deixar passar, com o pé direito na frente. Respirei um novo ar e fui recebida pela pessoa que mais amo deste lado do mundo. Lá estava ele… acolheu-me em seus aconchegantes braços e deu-me as boas-vindas a esta, que será para nós, uma vida nova.

4 thoughts on “Desembarque

  1. Quando a gente nasce, esquece de tudo o que viveu para passar por novas experiências, mas vc tem uma nova vida, sem perder as lembranças, tem tudo na sua memória, use-as em benefício próprio e faça seu tempo!!!!

  2. Eu senti o mesmo que vc Sandra quando cheguei em Lisboa,e lá estava o meu futuro marido a minha espera,identifico-me com vc por ser brasileira e por ter passado uma experiência parecida,ou seja atravessar o oceano e “deixar” a família e trazer em nossas malas esperanças,recordações,enfim muitas coisas para nos ajudar a começar uma nova vida,posso dizer que isso também nós faz crescer muito como pessoa. Graças a Deus escolhi e acertei,espero que vc também e que seja muito feliz com o seu marido.

    Rosana

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