*Enfim, terminei

cego

E ponto final. Terminei de ler o livro “Ensaio sobre a Cegueira” (José Saramago). Atropelei a minha leitura quando fui assistir ao filme de mesmo título. Depois de ter ido ao cinema, quase desisto de ler o livro. Não que não tenha gostado do filme, muito pelo contrário, mas é porque já sabia tudo que iria se passar e… deu um bocadinho de preguiça, mas fui em frente e cheguei ao fim. Posso dizer que fiquei perplexa com essa narrativa. O autor foi muito feliz com a temática. No meio da cegueira geral, que assola toda a sociedade da história, cujos personagens e lugares não têm nomes, há um completo quadro caótico. A sujeira, a fome e a sede tomam conta das ruas. Não há água, gás, energia, transportes e quaisquer serviços básicos, pois as pessoas que os mantêm também cegaram. A beleza, riqueza, luxo, vergonha dão lugar à simplicidade da vida e a procura pela sobrevivência na sua forma mais primitiva, não distinguindo classe social, idade, raça, sexo ou aparência. 

Os nossos olhos são portas abertas ao individualismo, ao preconceito, à inveja e não conseguimos fazer deles um filtro para a nossa alma. Além dessa, o autor trabalha também sobre a idéia de que sem organização social e a ajuda do próximo, a sobrevivência é praticamente impossível, principalmente quando não se tem o aparato tecnológico das sociedades modernas e leva-nos a uma reflexão profunda sobre a influência das circunstâncias no comportamento do ser-humano. Os olhos da única personagem que não fica cega (a mulher do médico) é como se fosse o buraco da fechadura, por onde a gente pode ver a decadência do ser humano. O interior sujo da sociedade individualista. Ela nos mostra todos os tipos de situações. Quando chora, são nossas lágrimas que escorrem ao vermos comos somos perdidos, cegos, dentro do mundo que construímos, e o cão é o único ser que dela tem compaixão, pois ele também pode enxergar. Os outros estão muito ocupados em sua angústica voraz por comida, ocupados em trair, ocupados em roubar, em violentar, em saciar sua sede de sexo e por água mesmo. Cegos para os outros, portanto. No mundo dos bons olhos, há pessoas que sofrem tanta descriminação (o velho da venda preta), que preferem viver no mundo da cegueira, porque encontrou a solidariedade de um grupo que o aceita como é e todos agora vivem igualmente e com as mesmas dificuldades.

Fica aqui, então, a minha dica. Se puder fazer uso de seus olhos lendo e assistindo a essa história, vá em frente e não se arrependerá. Depois dessa experiência, passa-se a encarar os problemas com outros olhos. Olhos de sentir.

Como já dizia Exupéry (Le petit prince) “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…”.

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