Gavetas limpas, mente nova

É chegado o dia que tanto adiava: o de fazer uma arrumação geral em meu guarda-roupa, de jogar no lixo, dar, doar peças e mais peças que… já estão velhas, que caíram de moda, que já não cabem e que… o que é incrível, pois até podem estar novas, mas se um dia fez sentido em minha vida, hoje não faz. Não tenho muito espaço em minha casa, portanto tenho de me livrar, sem dó, de tudo que não uso mais. Fazer isso é um ritual muito introspectivo, cuidadoso e de grande reflexão. A quanto menos coisas somos apegados, mais fácil é o deslocamento, a partida, a despedida. Ter muita coisa dá a sensação de que dali não sairemos nunca mais e criamos assim nossas próprias celas e estimulamos a cobiça alheia. Passei por um momento muito difícil, quando tive de fazer com que anos de minha vida coubessem em apenas duas malas de 32kg (quando saí da casa de meus pais no Brasil, para vir casar e morar em Portugal). Tive muita pena de deixar para trás livros, cds, roupas, sapatos e outros objetos de grande estima. Pensei, enfim, que tinha aprendido a lição e teria sempre só o essencial e compraria coisas de que realmente iria fazer uso contínuo, mas… percebo agora que nada mudou. Talvez seja essa uma grande meta a ser cumprida nesse ano que… ainda está no começo, né!? Depois de hoje, gavetas limpas, arrumadas, espaçosas e a certeza de que ali só entrará o que realmente for necessário. De roupa, apenas uma mala é o suficiente.

A cada mudança em minha vida, tenho um desejo súbito de comprar, de ser outra, de ser diferente, de acompanhar a mudança. Às vezes, ela é efêmera e… mais uma roupa vai obsoleta para fundo da gaveta, logo, menos espaços na minha vida, menos dinheiro, mais bagunça e… Realmente, isso tudo tem de mudar. Não tenho a intenção de ser São Francisco de Assis, mas… é preciso pensar mais para não cair nas garras do consumo.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

                          Luís de Camões

5 thoughts on “Gavetas limpas, mente nova

  1. Nem me fale! Com dois anos de casamento já entulhei montes de coisas em casa. Guardo tudo, com o tal do valor sentimental, que é desculpa na verdade. Estou pensando em doar muitos dos meus livros. A biblioteca de onde eu trabalho precisa bastante.

    Bjo!

  2. que post lindo!
    adorei!
    estou vivendo o mesmo momento!
    escreves muito bem, gostei muito de ler, voltarei por aqui.
    tomei a liberdade de referir teu blog e copiar uma foto e o que comentas sobre ele, o beijo, do robert doisneau.
    coloquei o link para o teu blog tambem.
    espero que não te incomodes.
    um beijo!

  3. Este post tocou, pois quando nos reservamos a arrumar a “nossa bagunça”, mexemos em recordações, é cd, livro, cartas, embalagens que para muitos é lixo, mas é necessario esta limpeza,faz bem para a alma !!!

    Eu sempre faço isso, sempre assim minhas emoções são filtradas.

    Abraço

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