O fio da meada

pc1As palavras “textura” e “texto” estão relacionadas, embora as pessoas, de maneira geral, associem “textura” a “tecido” e não a “texto”, mas a verdade é que um texto também é um tecido. A etimologia ilumina o valor semântico das palavras: no latim, “textum” é o participio passado do verbo “texto, is“, que quer dizer “tecer, fazer tecido”. Há também muitas metáforas fundadas nessa etimologia, por exemplo, “fio condutor” do texto, a “trama narrativa”, a “urdidura da história” etc. Um texto é uma união íntima, coerente e coesa das partes com o todo rumo ao propósito comunicativo. No poema “A dama contrariada”, Cecília Meireles borda um metapoema magnífico (Livro Vaga Música):

Ela estava ali sentada,

do lado que faz sol-posto,

com a cabeça curvada,

um véu de sombra no rosto.

Suas mãos indo e voltando

por sobre a tapeçaria

paravam de vez em quando:

e então, acabava o dia.

 

Seu vestido era de linho,

cor da lua nas areias.

Em seus lábios cor de vinho

dormia a voz das sereias.

Ela bordava, cantando.

E a sua canção dizia

a história que ia ficando

por sobre a tapeçaria.

 

Veio um pássaro da altura

e a sombra pousou no pano,

como no mar da ventura

a vela do desengano.

Ela parou de cantar,

desfez a sombra com a mão,

depois, seguiu a bordar

na tela a sua canção.

 

Vieram os ventos do oceano,

roubadores de navios,

e desmancharam-lhe o pano,

remexendo-lhe nos fios.

Ela pôs as mãos por cima,

tudo compôs outra vez:

a canção pousou na rima,

e o bordado assim se fez.

 

Vieram as nuvens turvá-la.

Recomeçou de cantar.

No timbre da sua fala

havia um rumor de mar.

O sol dormia no fundo:

fez-se a voz, ele acordou.

Subiu para o alto do mundo.

E ela, cantando, bordou.

A dona contrariada borda seu bordado.

 

“Trata-se de uma imagem do feminino criador, que não se deixa derrotar diante das dificuldades e teimosamente segue bordando / cantando sua história. Não custa aqui lembrar as raízes etimológicas comuns das palavras texto e tecido e as figuras tradicionais da mulher que tece como forma de resistência (como Penélope) e da mulher que segue enredando com suas histórias, como é o caso de Sherazade. Cecília sobrepõe as duas, criando a dona contrariada, que segue bordando sua história, contra todos os impedimentos e que o mundo apresenta. Não é difícil ver aqui, também, a dona contrariada como uma metáfora da condição da mulher, sempre às voltas com as dificuldades que lhe são impostas pela sociedade patriarcal” (Ana Maria Domingues de Oliveira, em “Figuras femininas da poesia de Cecília Meireles” (UNESP – Assis)).

E a Dona Contrariada, como mulher, dia-a-dia espera, trabalha, resiste e canta suas amarguras e desventuras, seus amores perdidos, levados pelos encantos nefastos do mar da vida…

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