De boca em boca

TelefoneSemFio

Brincadeira Telefone sem fio

Conhece a brincadeira “telefone sem fio”? Consiste na formação de um círculo, constituído por pessoas, em que uma pessoa fala baixo alguma coisa no ouvido de quem está em sua direita, por exemplo, e a frase vai passando de ouvido em ouvido até chegar a pessoa na esquerda de quem iniciou a brincadeira, que deve dizer a frase que ouviu em voz alta. A depender do número de pessoas, a frase inicial vai tomando contornos que muitas vezes faz o resultado final ser completamente distorcido do original. Quanto mais gente, mais distorcido. Parece que o uso constante da língua e sua passagem de boca em boca vai transmitindo variações específicas as palavras e frases. A mudança linguística só conhece um freio, que é a escrita. Em sociedades em que muitos não sabem ler/escrever ou o uso da gramática não é frequente, as mudanças ganham proporções ainda maiores e rápidas. Tenho um exemplo engraçado para isso: há uma localidade no Estado da Paraíba chamada ‘Monsenhor Magno’, uma comunidade de classe econômica baixa e pouca escolaridade. Se perguntar para alguém onde fica esse lugar, dificilmente obter-se-á uma resposta, porque os habitantes locais e adjacentes o conhecem como ‘Mussumago’. A comunidade foi ampliando e o nome original perdeu-se no tempo. Outro exemplo interessante são os adágios, como estes:

Popularmente diz-se:
‘Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho carpinteiro.’
O correcto é: ‘Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho no corpo inteiro. 

‘Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão.’
O correcto é: ‘Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão.’

‘Cor de burro quando foge.’
O correcto é: ‘Corro de burro quando foge!’

‘Quem tem boca vai a Roma.’
O correcto é: ‘Quem tem boca vaia Roma.’ (isso mesmo, do verbo vaiar)

‘Cuspido e escarrado’ – quando alguém quer dizer que é muito parecido com outra pessoa.
O correcto é: ‘Esculpido em Carrara .’ (um tipo de mármore)

‘Devagar com a dor, porque o santo é de barro’
O correcto é: ‘Devagar com o andor…’ (base sobre a qual se levantam as imagens nas procissões)

Chega a ser engraçado, não é? Principalmente porque a gente certamente já disse uma barbaridade dessas.

6 pensamentos sobre “De boca em boca

  1. Esse de Roma é realmente surpreendente. Fico me perguntando o por quê da vaia!? Você ja ouviu a expressão “por fim da força”? Descobri lendo Machado que vem de “por fina à força”. Tenho uma tia que diz umas umas palavras tão diferentes que achei que eram invenção dela, mas eu estava errada. Vi muitas delas nas obras de Machado.

  2. A vaia de Roma deve ser por causa do Império Romano, não sei. E eu digo “por fina força”. Creio que sua tia seja do interior da Paraíba, assim como a minha avó. Ela sai com cada uma que ficom realmente passada… É mesmo a pura língua, sem misturas, quase latim, kkkk. Bjs.

  3. Adoooorei isso!! Menina, a gente ouve cada coisa em sala de aula, por exemplo, que nem te conto. É engraçado demais e por fim muito criativo. Acho interessante essa coisa de a linguagem falada se transformar todos os momentos. Uma mensagem nunca será a mesma, depois que dobrar a próxima esquina. Legal!

    Bjo!

  4. Muito interessante. São realmente vícios de linguagem resultantes da repetição sem cuidado, que todos já ouvimos e em casos repetimos. Diz-se do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, que deve o nome a um francês louro, a que todos se referiam como “Le Blond”. Dá para acreditar. Obrigado pelos esclarecimentos!

  5. Meu marido é português e sempre inventa teorias para a origem da palavra “ônibus”, uma vez que em Portugal é “Autocarro”. Segundo ele, tudo tem início quando um turista inglês disse que queria apanhar “one bus”, eheheheh. Vai ver que essa hipótese tem lá seu fundo de verdade…

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