Os lírios de Veríssimo

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Essa semana, finalmente, acabei um livro que havia comprado numa feira de livros do Chiado, em Lisboa, e gostei muito: “Olhai os lírios do campo” do escritor brasileiro Érico Veríssimo. A brochura é de 1973, mas o texto é de 1938, apesar de o aspecto psicológico das personagens e sociedade serem bastante atuais, atemporais, portanto. O título da obra diz respeito a uma passagem bíblica (“Olhai os lírios do campo, não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles.”).
Os personagens do livro questionam muitas vezes onde está o poder de Deus que não atua diante das misérias do mundo. Eugénio, o protagonista, é um médico proveniente de uma família pobre e consegue, a custa de um casamento sem amor com Eunice, fazer parte da alta sociedade, onde ela habita. Vive durante muito tempo sob a luz da superficialidade, da ganância, do preconceito, da indiferença para com os problemas da humanidade, do comodismo. Não esquece, porém, de Olívia, ex-colega de curso, pessoa de alma simples, por quem teve um grande amor. A morte de Olívia e a existência de uma filha em comum, o fez descer os degraus sociais e mudar de universo por opção. Passou a conviver de perto com as doenças, com a impotência para salvar vidas, com problemas de foro íntimo dos cidadãos (doenças venéreas, que matavam/infectavam muitas pessoas na época, loucura etc), com a morte, e com a incerteza do que era ter escrúpulos e se havia um limite para isso. Há diálogos e opiniões fortíssimas sobre variados assuntos, principalmente sobre a existência e o papel de Deus diante da ganância, da doença e dos males que afligem a humanidade. Um trecho do livro explica o seu título:

“Deixou a janela e, como costuma fazer quase todas as manhãs, pegou um livro de medicina para estudar. Leu algumas páginas com a atenção vaga. Não podia esquecer a doçura da hora. Deviam estar lindas as ruas sob aquele sol maduro e amigo. Imaginou-lhe os reflexos nas árvores do parque, de sombras frescas, azuladas e cheirando a sereno. Os marrecos nadando no lago. Ana Maria atirando-lhes migalhas de pão… Fecho o livro, brusco, tornou a metê-lo na prateleira. Aproximou-se de novo da janela. O “Megatério” lá estava, esfumado no meio da neblina. A sua fachada de cimento achava-se marcada de recortes claros e simétricos, tabuletas, placas com nomes de médicos, dentistas, engenheiros, advogados, modistas, escritórios, clubes…
Se naquela instante – refletiu Eugénio – caísse na terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que, num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens, na sua maioria, estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas… E se perguntasse a qualquer um deles: “Homem, porque trabalhas com tanta fúria durante todas as horas de Sol?” – ouviria esta resposta singular: “Para ganhar a vida”. E no entanto a vida ali estava a oferecer-se toda numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se no Mundo e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição transformava-os em inimigos. E havia muitos séculos tinham crucificado um profeta que se esforçara por lhes mostrar que eles eram irmãos, apenas e sempre irmãos.”

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