Um peixe morre pela boca

peixinhoSou geminiana e, como muitos devem saber, este signo tem um enorme potencial para a comunicação. Seu lema costuma ser: “Quem tem boca vai a Roma”. Bem, no meu caso… violo tais habilidades de forma brutal e transformo essa sentença em “Um peixe morre pela boca”. Primeiramente, tenho um pânico de comunicar para plateias. Tremo tanto que dou lições a varas verdes. Tenho vontade de falar, de soltar o verbo para todos ouvirem. Imagino-me já na gloriosa cena, mas… quando chega a acção, borro-me toda. Tenho 4… anos (não interessa a ninguém o outro número, ok? Aqui não é revista Caras! Eheheheh), nunca fui à Roma e, senhoras e senhores, a fala é a minha maior fonte de martírio. Há coisas que digo que, sinceramente, gostaria de nunca ter dito e… como já disse e não há nada a fazer, tenho uma vontade imensa de saltar para frente de um comboio. Sou uma doente-verbal, eheheheheheh. Arrependo-me menos das coisas que faço do que das coisas que digo (há dias que solto umas opiniões que não sei de que parte de meu corpo sairam, sinceramente… Depois, apercebo-me da diarreia verbal proferida e só falto morrer por dentro de vergonha de mim mesma). E… quando alguém reforça a minha falha dizendo: “É, realmente, não devias ter dito aquilo…” Olho para um lado e para o outro, chego até a ouvir o piuíiiiiiii, mas o maldito comboio nunca aparece para livrar-me daquela aflição que se apodera de mim, eheheheheh (exagero danado, não é? Pois…). Ainda fico curada desta paranóia, pulo para dentro do tal comboio e vou mais é embora para Roma, rir mais de mim mesma, das situações e embaraços que impinjo à minha pessoa. Só rindo… Só o riso salva!

A sensualidade da gramática

Esse texto chegou até mim via e-mail. Não conheçImagemo o autor, mas é de uma criatividade invejável.

“Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: “Ótimo!” Pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. 

Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. 

Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta. Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela porta e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.”